14 de jan. de 2013

Introspecção

 

Introspecção - Vinicius de Moraes

 

Nuvens lentas passavam 
Quando eu olhei o céu.
Eu senti na minha alma a dor do céu
Que nunca poderá ser sempre calmo. 


Quando eu olhei a árvore perdida
Não vi ninhos nem pássaros.
Eu senti na minha alma a dor da árvore
Esgalhada e sozinha
Sem pássaros cantando nos seus ninhos. 


Quando eu olhei minha alma
Vi a treva.
Eu senti no céu e na árvore perdida 

A dor da treva que vive na minha alma.



13 de jan. de 2013

Sempre Que Vires o Brilho do Ouro




Sempre que vires o brilho do ouro, lembrarás de mim.
Pois o ouro sorri sem vergonha,
E sonha dourado.
Pois o ouro tem sangue guerreiro,
E é fiel ao seu reino.


Sempre que vires o brilho do ouro, lembrarás de mim.
Pois o ouro respira fogo,
E quando aquecido,
O ouro queima,
E quando ofendido,
O ouro derrete.


Sempre que vires o brilho do ouro, lembrarás de mim.
Pois o ouro é sólido,
E ao mesmo tempo,
Suave aos olhos.
Pois o ouro sente,
E é a chama que inspira a gente.


Sempre que vires o brilho do ouro, lembrarás de mim.
Pois o ouro é o sol que alimenta a alma.
O ouro é o dia que ilumina a sombra.
O ouro é rico, o ouro é nobre,
O ouro ama.


Sempre que vires o brilho do ouro, lembrarás de mim.
Mas o ouro de noite é prata.
E a prata é a luz da lua que ilumina o mar
Que sai dos meus olhos
Ao lembrar de ti.


Por isso que sempre que vires o brilho do ouro,
Verás também meu olhar de prata,
Deslizando no brilho da lua,
À encantar os seus olhos de mar,
Em um profundo luar de serenata.

  





Fabio M. Camara


 

5 de jan. de 2013

Vício



Estou me livrando de todos os meus vícios.
Chega de exagero e drama.
Não quero mais nada em demasia.
Agora eu só quero calma, alegria,
e um pouquinho de poesia.



Fabio Camara



Amar



Amar – Carlos Drummond de Andrade



Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
 e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa,
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.