3 de dez. de 2014

A Moça Com a Arma na Mão

UMA FÁBULA

Sobre a sensação da Culpa, mecanismos de defesa do ego: negação, racionalização, e fantasia. et al.

*Inspirado no conto A Roupa Nova do Rei, 
(por Hans Christian Andersen), sobre uma suposta roupa invisível de um rei, que só seria vista pelos mais inteligentes, mas na verdade verdadeira verdadeiramente; não existia.

A MOÇA COM A ARMA NA MÃO

Com a arma apontada para minha cabeça, ela me pergunta mais uma vez se o rei está vestido. Eu imploro e juro à ela que o rei está de fato pelado, correndo pelo palácio, tentando catar borboletas. Ela se irrita ainda mais, e jura que eu estou mentindo. Aponto para as roupas verdadeiras dele espalhadas pelos pisos vermelho brilhante do vasto saguão. O jester da corte, de chapéu de três pontas, azul, vermelho, e amarelo, amedrontado, numa tentativa frustrada de acabar com aquela tensão, pega uma vestimenta do rei e sacode sobre sua cabeça mostrando para a moça com a arma na mão, que o rei estava realmente despido. Mas, irredutível, ela aponta a arma ainda mais para minha cabeça, e ameaça explodir meu cérebro em farelos, se eu não admitisse que o rei estava de fato vestido. 
   
Eu imploro mais uma vez, sob a mira da moça com a arma, gritando e olhando diretamente nos seus olhos que o rei estava nu, enquanto o próprio rei ainda saltitava com as mãos para o alto ainda tentando capturar borboletas. Com um olhar abstrato e furioso, e convencida de sua certeza, a moça atira duas vezes no meio da minha cara, porra! Os dois tiros entram pelo meus olhos e saem em rombos diferentes nas costas da minha cabeça, esparramando pedacinhos de cérebro e sangue pelo piso já vermelho, e agora um pouco negro. Eu olho diretamente para os farelos de cérebros no chão e tento pegá-los com a mão, mas sua textura gelatinosa se desfaz entre meus dedos. Volto meus olhos com raiva e desgosto para aquela moça com a arma na mão, que ja foi minha amada algumas horas mais cedo. Ela grita e esbraveja dizendo que a culpa foi minha, e se ao menos eu tivesse admitido que a porra do rei estava vestido...

O jester e outros discípulos do rei olham para ela com olhar de preocupação e medo, rezando para que a moça com a arma não os fizesse a mesma pergunta. Eu dou um basta na situação, viro de costas, com raiva no olhar, apontando os dois canos, agora nas costas da minha cabeça, para os olhos raivosos dela, e começo a andar. Paro e abaixo para recolher os pedaços do meu cérebro que eu consigo segurar com as mãos em forma de concha. Continuo a andar ignorando os xingamentos e o devaneios da moça, que já foi minha amada alguns minutos mais cedo. Meu coração pensava em interná-la em um hospital psiquiátrico, mas meu cérebro era só raiva despedaçada! E continuei.

A moça com a arma na mão, então se sente rejeitada e me acusa de desprezá-la, e de ser arrogante com ela, e insensível à sua dor. Dispara ainda mais tiros de ofenças e xingamentos, que são respondidos à altura por mim, e pelas migalhas de cérebros indignados em minha mão, e pelos buracos de tiros enfeitando as costas da minha cabeça, enquanto meu coração observa. Indignada, a moça com a arma, que já foi minha amada alguns segundos mais cedo, atira mais três balaços pelas minhas costas, que me atingem de raspão no braço e na coluna. Eu continuo andando, mas paro, e olho para trás em um determinado momento, chegando na porta de saída. A moça me pergunta se eu não vou voltar para conversar com ela sobre o que havia acontecido. Meu coração olha para cima e me pede pacientemente para ficar mais um pouco, mas os farelos do meu cérebros revoltados e esmigahados em minha mão, escorrendo por entre meus dedos, se recusam, e ameaçam uma rebelião generalizada, caso eu volte.

Eu respeito meu cérebro, o que deixa uma moça com uma arma na mão, quem eu já não sabia ao certo quem era, ainda mais irritada pela minha insolência. Ela continua me atacando, com ainda mais raiva e desgosto, atirando devaneios pelas minhas costas, mas suas palavras já não são mais distinguíveis. Parece um idioma que eu não conheço ao certo. Seu rosto já não é mais o mesmo, sua pele vai enrijecendo, e distorcendo conforme eu saio para o lado de fora daquele saguão fechado, e adentro o jardim. Na saída vejo alguns discípulos ajudando o rei saltitante a se vestir de novo. Pego o caminho ao lado e continuo andando. Quando olho para trás vejo uma masmorra com uma mulher velha, de cara rígida e fria, com as duas mãos na cabeça sacudindo seus cabelos negros ressequido, de um lado para o outro, olhando para o chão, e jurando que um dia existiu um rei, em algum lugar, que andava vestido, e não catava borboletas. Eu não soube dizer ao certo do que ela se referia.

Imaginei que talvez tivesse sido alguma história de um amor que se perdeu, e se trancou em uma masmorra, desolado. Meu cérebro me agradeceu, orgulhoso, por alguma coisa que não me lembro, se acomodando de volta em meu crânio espaçoso.
E meu coração nunca mais se atreveu a tomar as rédeas da situação, de novo.

Moral da história: AS BORBOLETAS REALMENTE EXISTIAM?







fABiO cAMarOU


.

1 de dez. de 2014

O Barulho do Mar e o Silêncio

Lá fora o barulho do mar,
Aqui dentro o silêncio.

O silêncio que vem de dentro, retumbante, revolto, eloquente.

O silêncio destorcido.

O silêncio que é o vazio, o sem, o ímpar; a falta. 

O ímpeto.
O silêncio que é a falta até da saudade. 
A insignificância...  o que não me acompanha.
A falta de propósito, falta de amor, de ódio, de esperança. 
O sempre sem sentido.
O ópio.

O silêncio que é bom e mau ao mesmo tempo.
E nenhum dos dois, pois eles só existem no silêncio.
O silêncio que é eterno, e efêmero, e sem tempo.
O silêncio reconfortante de deus. 
Que não existe.
A falta,
A morte.

O silêncio de tudo aquilo que só existe em mim.

E TUDO só existe em mim.
De todos os livros que eu não li, de todas as bocas que não beijei.
E do que há de vir.
Em mim.

Que fala o que quer, mas cala.

O silêncio que berra calado. 
Que fala o que quer calado.
E corrói. 
O silêncio calado, ensurdecedor, 
Que corrói.

O silêncio, por versos, que declama moralidades e éticas eloquentes,

É o mesmo silêncio; perverso. Eloquente. 
Que remói.

O silêncio que berra brados de fúria descontrolados.
Que range, que quebra, que chia.
Que trinca.
Reclama, declama, 
E recita.

O silêncio da minha infância de capa de herói,
E espada de enfeite na mão.
Do peão.
Do machucado.

O silêncio dos meus pais, abandonados no cemitério da minha alma.
Dos meus amigos, fantasmas, perambulando por bares,
Dos copos de whiskey e das taças de vinho-tinto,
Que inundam minha alma, e transbordam meu corpo.
O silêncio dos brindes estridentes.
Sem voz.
Sem vez.

O silêncio brilhante e invisível do meu amor.
Tão presente e tão pensante como o silêncio das ondas do mar,
Batendo prazerosas na areia,
Ouvinte do meu quarto de hotel.

O silêncio uivante dos lobos solitários na noite escura, fria, e pesarosa. 
O silêncio gritante do arrependimento ecoando em todos os cantos da minha alma.

O silêncio em todos os cantos da minha alma,

Mirados ao céu.
Em todas as lágrimas que caem ao chão,
Sujo,
Pela humanidade.

Aqui dentro, o silêncio;

O silêncio do mundo, de todas as coisas, de todas as casas.
Em todas as asas que me tiram do tom.
Aqui dentro o silêncio dos sentimentos, de todos os males, da bondade.
O silêncio da bondade.
Aqui dentro o silêncio do campo, o silêncio do rio, dos riachos, e das cachoeiras,
O silêncio do tempo,
Das brisas, do inverno, das ribanceiras,
O silêncio do vento.
Do mistério.
Aqui dentro, o silêncio preciso.


Lá fora o barulho do mar...

Apenas o barulho distorcido do mar.








FaBiO CâMARa




10 de nov. de 2014

Um Café Expresso


Acabei o jantar e fiquei escutando aquela musiquinha agradável do restaurante. O restaurante é bonito e amplo; bem quadrado e preto e branco, com apenas algumas curvas tortas e esporádicas para dar estilo. Imaginei o salão de festas do Titanic (antes do naufrágio é claro); com todas aquelas cristaleiras esbeltas, e aqueles músicos de terno preto tocando violino. Dei o último gole no guaraná zero que eu estava bebendo. Senti um frescor divertido no meu lábio superior ao encostar num pedaço de gelo que ainda estava no copo do guaraná. Reclinei na cadeira, bem confortável, por sinal, e coloquei as duas mãos na nuca para relaxar. Pensei em tomar um cafezinho. O cantor de terno preto começou a tocar aquela música que eu gosto; "lá, laiá, laiá..."

Pedi um café expresso. Adoro essa música! O café veio logo em seguida, em uma xícara pequenina, com flores verdes claras estampadas, tipo de rainha inglesa. Veio com uma bala de banana na borda, um sachê de açúcar branco escrito: açúcar/sugar; e um sachê menorzinho de adoçante escrito: adoçante/sweetener. Decidi adoçar com açúcar hoje; chega de tentar emagrecer, hoje pode, só por hoje. Abro o sachê de açúcar branco rasgando o papel no canto, e começo a salpicar por toda a superfície do café. Cubro toda a superfície com os pequenos cristais de açúcar. Os cristais se lançam na espuma do expresso com vontade, e se mesclam com o café marrom, que muda de cor para um tom mais turvo ao se tocarem. Gostei de ver aquela metamorfose alcaloide. Imaginei que os cristais de açúcar fossem pessoinhas se afogando em um mar de lama, agitado com cafeina. Pensei em escrever um livro sobre isso. Pensei até em escrever essas exatas palavras. Como seria se afogar em cafeína? Me indaguei. Tentei pensar num título para o livro por alguns instantes, mas nada me veio à cabeça. Só consegui pensar em pescadores de marlins, não sei porquê. Salpico o açúcar com mais rispidez, e alguns cristais caem fora da xícara pequena, se espalhando sobre a mesa ao redor do copo (a mesa também é marrom, uhmm... interessante). É encantador ver os cristais de açúcar espalhados sobre a mesa ao redor do copo; devia ter uns 40 cristais brilhantes. Podiam ser os sobreviventes do naufrágio, quem sabe... pensei subitamente como um lampejo. Mas na verdade, eles pareciam diamantes esperando para ser descobertos em uma ilha deserta (diamantes numa ilha?). Enfim...

Espalho o restinho do açúcar ainda mais sobre a mesa ao redor do copo, só pra vê-los todos espalhados desordenados. Agora devem ter uns 80 ou 95 diamantes. Caóticos.  É fascinante. O cantor canta aquela parte da música do "lá, laiá, laiaá..." de novo, e eu canto com ele em voz alta. Ele me lembra um judeu gordo, tocando piano, num restaurante nazista. Os nazistas recrutavam os judeus talentosos para distração naquela época. Ou um negro cantador de blues na escravidão. Mas ele era branco, então não podia ser isso... Pensei no café. Levei o copinho delicado até a boca, segurando com dois dedinhos, parecendo uma dondoca francesa em um castelo de vidro. "lá, laiá, laiaaá..." Os cristais de açúcar, ou diamantes, deixaram um círculo de vazio no meio onde a xícara estava. Um círculo perfeito e redondo. Pensei em trigonometria; seno, cosseno, e tangente, enquanto levantava o café. Os círculos perfeitos só podem ser feitos com triângulos pequenos, cada vez menores, progressivamente. Na verdade, cada curva é uma reta invisível, e indivisível. Pensei em pedir uma caneta e uma régua ao garçom para desenhar um círculo perfeito no guardanapo. O cantor muda de música de repente. Começa aquela: 

"Chega de saudade,
  A realidade é que sem ela não há paz,
  Não há beleza...."

O café está amargo demais. Abro o adoçante, e deixo os pedaços de papel sobre a mesa ao redor do copo. Coloco o conteúdo inteiro do sachê dentro do copo. Mexo. Bebo. Agora está doce demais! E a música continua: 

"...mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca..." 

Bebo o café expresso num gole só. Sinto-me queimar o lábio superior. O açúcar na mesa está me incomodando profundamente. Parece sujo. Bagunçado. Espano com um pano para limpar. O suor do café fica na mesa e faz um estrago ainda maior; molhando ainda mais o molhado do café. Não consigo secar direito, mesmo com força. Muita força. Confesso. Cato os pedaços de papel do açúcar e do adoçante que agora me incomodam profundamente. Irritante como quando o volume da TV cai no número 17! Pois é. O 7 está a três casas do 10, e a duas casas do 5. E 3 mais 2 é igual a 5, que não são 7! Sendo que 1 mais 7 é igual a 8, e 7 menos 1 é igual a 6, que é 86, e não faz sentido com o 17! De forma alguma! Não alcanço. Amasso e jogo na xícara vazia os pedaços. Mas eles não pertencem ali... na xícara vazia do café expresso... é estranho; invulgar... O lugar deles é no lixo... longe dali... me importuna. O gelo do copo do guaraná já derreteu... Bebo a água do gelo do copo do guaraná num gole só... E levanto daquela mesa esquisita... 

                 O judeu continua cantando aquela música:
                       "...que não sai de mim, não sai de mim, não sai."







Fábios Morgados

O Meu País

O meu país é azul e branco
do homem branco de sangue azul
Que vem de terno
Que vende tudo!

O meu país é azul e branco
Vende-se o verde e o amarelo!
Vende-se a esperança desbotada
Vende-se a mata cor de sangue
A juventude transviada
Vende-se e mata!

O meu país é azul e branco
Voa-se alto no céu da pátria
ó pássaro azul da liberdade!
Em teu formoso céu risonho e impune
Rouba-se meus raios fúlgidos
Compra-se desigualdade!

O meu país é azul e branco
O resto é preto, o resto é pouco!
Foda-se o negro sem berço esplêndido
Foda-se os versos de Pernambuco
Foda-se as almas às margens plácidas
Vende-se a honra, vende-se a calma!

O meu país é azul $ branco!
O verde-louro desta flâmula
- Envelhecida - 
É da cor que engana
Ó pátria Amada - Manipulada -
Despercebida...





Fabio Câmara







A frieza de nossas almas esconde um rio vermelho

Que transcorre latente em nossas veias

Prestes a transbordar! 





Fabio M. Câmara

19 de set. de 2014

Contratempo

Portanto, o tempo passa.
Por tanto tempo passa o tempo

Passa tanto pensamento...

Passa o vento e a vida passa
Passa a dança e a sorte passa
Passageira, passa a Morte

Passo em falso, passo lento!

Passo a passo reinvento
Por não passar de contratempo
Passo o tempo

Passo o Tempo.

16 de ago. de 2014

Em algum lugar dentro do tempo

Onde o mar encontra o vento

Num canto tranquilo do Pacífico

Existe uma surfista indígena 

De cabelo emaranhado


Ela brinca com as mãos na areia 

De pele áurea e alma livre

Dança com os pês na água

Cria asas e não raízes


Com seus olhos cor de música 

Pinta a vida como um poeta

Carrega impressa na cintura

Uma nota pura que permanece


Sem saber se é cor ardente 

Ou se é cinza que não se aquece

Sem saber se é estrela eterna 

Ou vida efêmera que envelhece


Em cada canto vê melodia

Essa moça leve que passa e fica

Em três lugares ao mesmo tempo

no peito, na pele, e no pensamento


Me serve a cada manhã do dia 

Na boca, um sabor sem fim,

Com conta gotas de poesia

Um perfume doce como Jasmim







Fabio Câmara

23 de jul. de 2014

Lobos e Loucos

"Alguns nunca enlouquecem, que vida de merda eles devem levar."  --Bukowski


Sério???? Vai saber né... Será que não deve ser bom ser são? Eu que não sei... Mas queria saber. Não quero parecer aquilo que eu não quero ser, não quero viver aquela antiga farsa do "eu não queria mesmo..."  Mecanismos de defesa... que beleza... Eles nos cegam de dentro para fora.
Somos lobos e loucos. Cegos e perdidos na escuridão.

Talvez se todos fossemos sãos, poderíamos viver uma vida coerente e prazerosa. Talvez concordaríamos todos em algumas coisas. Pelo menos em algumas coisas... por favor. Todos! Talvez a beleza fosse relativa e não o perdão. Talvez a esperteza fosse relativa e não o amor.
Talvez se fossemos cegos, então, de fora para dentro, poderíamos ver a cor da perfeição, mesmo sem a visão.

Mas como não enlouquecer? com tanta hipocrisia ao nosso redor; tanto nonsence sem sentido disfarçado de verdade, tanta banalidade; princípios escondidos e mal fundados politicamente, moralmente, religiosamente, e basicamente estamos perdidos: socialismos, capitalismos, democracias, ideologias, i-phones 3, 4, 5, Ss, Cs, Google Glasses, SSs, manifesteiros, rolezeiros, Nazis, Iraquis, Américas cretinas/heróicas, Israel, Palestinas! Sem falar em Russia e China! Tem uma hora que cansa.. .
Menos morfinas, e mais Tan-ge-ri-nas!
Menos brinquedos, e mais crianças!

Menos guerras, menos crenças!
A cruz de ópio que o povo carrega com ódio. A heroína da razão!
Pregando amor e compaixão, e roubando um milhão.
Pregando perdão, e queimando "bandido". Ignorando o primeiro dos mandamentos: não matarás!
Quem estará por trás disso tudo? Satanás? Não sei! É muito para minha imaginação!

Eu vejo tanta gente querendo o bem, tanta gente pedindo por um mundo melhor, mas nada melhorando, nada acontecendo. Eu vejo muita rebeldia com causa própria. Rebeldia egoísta.
É inteligível hoje em dia querer o bem coletivo, mesmo que isso lhe faça mal. Altruísmo já saiu do Aurelho, já caducou, e já morreu de velho!

O coletivo que é incoerente. Individualmente somos sãos, mas o mundo é doente. Individualmente somos perfeitos, mas não nascemos para coexistir. Individualmente, não temos defeito, pois somos únicos. Somos cada! Como ser errado, sendo único, sendo tudo? Impossível. Somos perfeitos sozinhos. Até mesmo os lobos maus, o assassino cruel, mortal, podre e vil. Todos. Individualmente é perfeito. não 'são', é! é exatamente o que é. Sem comparação. Não existe diferença entre cães e lobos quando todos são lobos, assim como não existe diferença entre sãos e loucos, quando todos não são.
Cada ser único é perfeito, pois não existe parâmetro para comparação. Agora o coletivo não.
O coletivo é louco!

A partir do momento que  duas pessoas existem co-existindo, os problemas incidem. Invés de perfeito, eles passam a ser relativos.

Não existe nem uma coisa sequer que nós todos conseguimos concordar. Parecemos baratas tontas correndo cada uma para o seu próprio lugar. Não temos sequer nem 1 ponto de congruência. Tudo é relativo. Ninguém concorda em tudo. Não existe nada que una todas as pessoas... dane-se amor, dane-se paz, dane-se igualdade, dane-se melhor condições de vida para todos, dane-se Deus... Tudo é relativo. Desafio-te a encontrar alguma coisa em que todos concordem. Não há! Até mesmo quando algo é bom para TODAS as pessoas, nem todos concordam, pois até mesmo "melhor" é relativo, ou até mesmo "todos" é relativo.

Eu quero absoluto! Quero me embriagar de absoluto até ficar são! O individuo é absoluto! O coletivo não.

Como especie, estamos perdidos. Somos uma especie perdida.
Uma especie de lobos loucos, de antolhos.
Ninguém concorda em nada. Não vale a pena pensar. Não vale a pena lutar. Não vale a pena mudar. O mundo está sem sentido, (coletivo!) sem direção. Não temos regras, ou Absolutos.
Ninguém concorda. Nem com a Razão.

Então responda-me, bom Deus, criador do céu e da Terra, dos dinossauros e da grande explosão: se queres que creia em ti cegamente, de dentro para fora, por que então, meu Deus, me deste 'Razão'?
Por que não me criaste já embriagado. Por que me fizeste homem e não lobo?
Me deste opções, mas não me deste Escolha.



                                     --------------------//------------------------



Eu realmente gostaria de acreditar que algum dia iremos todos andar em uma mesma direção, que pelo menos iremos concordar em alguns aspectos, como especie. Eu gostaria de acreditar que existe algo nos seres humanos que nos una; ago absoluto e individual, algo para o que possamos recorrer quando precisássemos, algo igual em cada um de nós, algo que nos fizesse deixar nossas diferenças de lado, e que nos fizesse pensar, "pera ai, isso é mais importante. Vamos lá, todos juntos." Talvez esse link exista. Talvez apenas ainda não o encontramos dentro de todos nós. Talvez não encontramos porque talvez ainda não exista uma coisa que atinja a todos nós, coletivamente. Talvés apenas falte ativar esse link. Talvez uma peste que atingisse todos nós. Um vírus. Uma praga. Mesmo assim, acho que nem todos nós iriamos aderir à causa. Aposto que vão ter pessoas tentando se beneficiar da situação; querendo ganhar dinheiro, ou algo assim. Fico imaginando que talvez um ataque alienígena pudesse ajudar a despertar esse sentimento. Algo que colocasse em risco a nossa sobrevivência; a sobrevivência de toda a humanidade. Será que só assim iriamos nos unir? Será que TODOS se uniriam? Será que só assim conseguiríamos andar todos em uma mesma direção? Será que guerra é a única coisa que nos une? Será que destruição é o que temos em comum? Será que é só isso? Ou será que haveria gente se juntando aos aliens, se fosse dada a oportunidade? Será que trairíamos a nossa própria especie? Infelizmente, eu acho que sim. Acho que como especie, estamos loucos. Como especies somos lobos solitários. Estamos doentes de uma doença sem cura. Infelizmente, acho que melhor que temos a fazer é continuar a vasculhar calmamente, como mendigos velhos que aprenderam a controlar a fome, por migalhas de felicidade, entre os lixões podres desse mundo louco.




13 de abr. de 2014

Quando Apago a Luz



Quando bato a porta
é quando estou mais em flamas.
Quando deito à cama
é quando mais preciso.
Quando apago a luz
é quando estou mais aceso.
Quando fecho os olhos
é quando mais respiro.
Quando durmo
é quando morro.
Quando sonho
é quando vivo.





Fabio Morgado Câmara

12 de abr. de 2014

Só quem vê



-Só quem é, vê.

-Só quem é o quê, mané?
Poeta?!

-Não José.
Poeira.






Em homenagem ao grande Mané:
Poeta de Barros.

"O meu quintal é maior que o mundo."


Fabio Morgado Camara

10 de mar. de 2014

Somos Meros


Somos meros animais enjaulados
Sem saber onde fomos capturados
Somos meros, animais enclausurados
Sem Saber
Como fomos encontrados
ou por quê








Fabio M. Camara

24 de dez. de 2013

Feliz Natal!!!!!! :D

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!




(Fernando Pessoa)

26 de nov. de 2013

A Corda Bamba da Vaidade



Sento-me à mesa mais uma vez, 
Passeando em versos livres pelo Jardim Doente.
Olho a minha volta este palco cheio de pessoas vazias convencidas dos seus disfarces, 
Como estátuas ocas com poses de esculturas épicas, 
Compostas de valores dúbios, depostas de estruturas éticas,
Se equilibrando em um pedestal flácido corroído pelo ácido da arrogância. 
Um céu ilustre de estrelas pálidas.
Um teatro cômico de palhaços fúteis desfilando em linha torta,
Pela corda bamba da vaidade. 
Um salão de exposição de autorretratos célebres carentes de mérito. 
Todos com sorrisos cínicos entalhados no rosto,
Louvando seus egos pútridos.

O café gelado desce envergonhado, lavando suas bocas frígidas, 
aquecendo suas almas frágeis. 
Senti no meu hálito um gosto amargo de mágoa e desgosto. 
No meu âmago uma ânsia insana e sóbria, 
E uma vontade sombria,
De desistir de existir.

Mas de repente a paisagem muda; e grita de perder o fôlego.
A moça passa exalando fogo, vestida de indiferença,
Despida de graça, sem pressa, devassa, pela nevoa espessa da empáfia. 
Em um movimento lento de um momento íntimo da sua língua doce, 
Como um manto de plumas de um ganso lúbrico, agasalhando seus lábios mansos,
Ela causa um incêndio no tumulo dos meus desejos,
Que aquece meu ego que logo envaidece, 
Se enfeita de cobre, e esquece que é nobre,
E logo apodrece.

Sento-me à mesa mais uma vez,

Cego e confuso, eu lanço meu canto.
Do lado interno, seguro e sincero,
Me sinto um intruso.

Me sinto traído, e consumo meu pranto,
Não pelo encanto de quem eu seduzo,
Não pelo espanto de quem eu desprezo,

Mas sim pela pena que escreve este conto.





Fabio M. Camara

31 de ago. de 2013

VERTENTE



Antigamente,
Confesso que, para ter razão, fazia bagunça parecer barulho;
Fazia revolta parecer pretexto, contexto, para ser profundo,
Fazia esboço parecer prisão;
E para ser contente, fazia conflito perecer romântico;
Fazia seria parecer sereia; 
Fazia poema parecer semente.
Confesso que antigamente,
Fazia mentira para ser semântico;
E para ser autêntico, fazia um instante parecer constante.
Confesso que antigamente,
Para ser confuso, com fundo de verdade,
Fazia do efêmero permanente;
E para ser político, fazia ilusão com liberdade;
E para ser loucura, fazia um lúcido parecer maluco;
Antigamente, confesso, contemplava o absurdo; 
Para ser o nada e parecer com tudo.

Contudo, de repente, 
Um ser nada em minha mente;
Fiz do aparente inexistente, uma vertente coerente;
Fiz parecer o ser com parecer,
E agora transbordo impunemente,
Vulnerável, de Prazer.






Fabio M. Camara

20 de mai. de 2013

Um Dia de Sol


Outro dia, eu e minha mãe estávamos na praia, em um dia de sol escaldante em Aracaju, protegidos apenas pela sombra do guarda-sol e uma leve camada de Sundown que teríamos passamos algumas horas mais cedo. Estávamos parados em volta de uma daquelas mesinhas quadradas amarelas desbotadas de plástico com propaganda de cerveja nos quatro cantos, sentados em cadeira igualmente amarelas e igualmente desbotadas, e igualmente quadradas, olhando para o nada ao redor, e conversando sobre mais nada ainda. A praia estava bem deserta, apesar da sexta-feira. Eu estava sentado de frente para o sol ardente e de costas para o mar. O vento, apesar do calor, estava irritante porque estava levando os guardanapos do caranguejo que estávamos comendo, e eu tinha sempre que colocar os copos de cerveja em cima deles, e ficar vigiando as coisas porque eu não queria que elas voassem pela praia a fora. De repente, depois de algumas horas sentados, comendo, bebendo, abobalhados, eu virei o rosto para minha direita bem contra o vento enjoado, e avistei um rapazinho andando em passos longos apressado, num andar ritmado, quase que dançando, vindo em minha direção e carregando uma sacola branca de plástico, e gritando alguma coisa que não dava para distinguir à distancia. Na hora eu pensei que fosse algum maluco sergipano que resolveu dar uma volta na praia numa sexta-feira de sol.  Mas quando ele foi chegando mais perto, eu percebi que ele gritava alguma coisa com a palavra “amendoim”. Era um vendedor de amendoins.

Quando eu percebi o que ele era, eu virei o rosto porque eu já tinha experimentado esse tipo de amendoim, com casca, sem sal, e quase cru, e não gostei nem um pouco. Tem gosto de carne mal passada, ou bife de fígado, sei lá. Isso em um disfarce de amendoim não é muito apetitoso. Além disso, eu não estava com paciência para ficar conversando com o rapaz do amendoim. Mas para meu desencanto, o rapaz parou em nossa mesa. --"Bom dia, pronto, aqui está o melhor amendoim do Nórdéste", ele falou essas palavras no sotaque mais nordestino e mais carismático que eu já tinha ouvido em todo nordeste. Na mesma hora eu tive vontade de soltar uma gargalhada bem alta e espalhafatosa, mas tudo que saiu foi um sorrizinho cordial e receptivo. Obviamente, fiquei curioso em provar o melhor amendoim do Nordeste! Então ele começou a falar. E não parou mais. Sempre no seu sotaque divertido, ele falava: "este aqui é muitcho bom, é feitcho de amendoim natural..." O que me fez pensar o que seria um amendoim artificial... Ele colocou vários saquinhos de amendoim sobre a mesa, e listava o preço de cada um.    --"Nãaaao tem sal nenhum senhora, porque a senhora sabe que sal faz mal né? Todas as pessoa pode comer este amendoim!" Ele repetia várias vezes isso para minha mãe mesmo depois dela ter enfatizado que só gostava de amendoim com sal. --"Porque eu sou o melhor vendedor desta praia. Eu venho todos os dias aqui, os gringos só compram comigo." Não tinha visto nenhum gringo ainda. Mas tudo bem. A gente não queria amendoim nenhum, minha mãe só gosta com sal, e eu não gostava de amendoim com gosto de carne crua. Então eu falei, para tentar me ver livre dele logo: "moço volta amanhã que a gente compra, ta bom? Hoje não queremos não." Na mesma hora ele ficou espantado, quase que ofendido. Não porque a gente não queria comprar o amendoim dele, mas porque eu insinuei para ele trabalhar no sábado. --"Amanhã  nãaaaaooo... Amanhã eu não trabalho nãaaaao... oxenti. Amanhã é sagrado!" Minha mãe falou alguma coisa sobre descansar no sétimo dia. Eu lembro que eu até fiquei em dúvida se sábado era o sétimo dia, ou se era domingo. Normalmente, domingo que era o dia de descanso... Mas estávamos em Sergipe, bem próximo da Bahia, então ele estava certo mesmo de não trabalhar finais de semana. Ele comentou alguma coisa sobre ir à igreja no sábado, e falou também que a igreja tinha salvado a vida dele porque ele já tinha sido um marginal, que vivia no mundo das drogas, e álcool. Eu fiquei admirado, pois ele estava vendendo 'O Melhor Amendoim do Nordeste', e já tinha sido um drogado! Ele contou também, sempre no seu sotaque bem ritmado, rápido e lento ao mesmo tempo, como seu andar, quase uma dança, bem simpático e nasal, que um dia ele teve uma visão. Ele disse que ele estava deitado, "eu tenho cééérteza que eu estava acordado! Não é mentira nãaaao, Eu tenho cééérteza!" e que ele viu um ser vestido de branco com braços longos estendendo a mão para ele. Ele não podia ver o rosto, mas tinha cééérteza de que era um anjo de Deus. Depois disso ele entrou para igreja e passou a vender amendoim e a não trabalhar finais de semana, pois era sagrado, e nem a usar drogas.

A esta altura a cerveja tinha acabado, e eu estava prestando mais atenção onde o garçom estava, para pedir outra, do que em que ele estava falando, mesmo com seu sotaque simpático e divertido. Foi aí que ele fez a pergunta mais inteligente daquele dia de sol: "O que é inteligência?" Opá! Na mesma hora, eu esqueci a cerveja, e em questão de 2 segundos passaram-se diversas teorias sobre inteligência na minha cabeça. Pensei na teoria mirabolante da Inteligência Multifocal de Augusto Cury, tentei me lembrar do livro que eu li há anos sobre Inteligência Emocional e Inteligência Social de Daniel Goleman, lembrei dos testes de QI que já fiz em várias ocasiões. Pensei na Teoria Cognitiva de Piaget e nos estagios da vida. Tentei me lembrar de Freud, Skinner, Bandura... Os 2 segundos inicias já estavam se esgotando, mas ainda tive tempo de pensar que a inteligência talvez estivesse na velocidade de raciocinar e na capacidade de resolver problemas. Também me lembrei da inteligência esportiva dos atletas, de que tem que se ter um cérebro muito eficiente para acertar uma bicicleta com a bola vindo em alta velocidade em questão de segundos. Mas antes que eu pudesse responder, ainda dentro daqueles 2 segundos, minha mãe fez um esboço para tentar responder alguma coisa, pronunciando as palavras de uma forma lenta e irritante: "ahhh eu acho que..." Isso me deu mais uns 2 segundos para pensar que ela iria falar alguma besteira, e seria melhor eu interrompe-la antes que ela me fizesse passar vergonha na frente do pobre vendedor de amendoim. Mas ao mesmo tempo em que eu sabia que eu era a pessoa mais propícia para responder a pergunta daquele rapaz insistente, eu também sabia, com toda minha Inteligência Prepotente, que provavelmente ele não iria entender nada da minha resposta. Neste momento, os outros 2 segundos estavam perto de chegar ao fim, e minha mãe já estava terminando de pronunciar o "que". Então eu falei em voz alta, firme e rápida: "Não, não sei! Fala aí você! O que é inteligência?" Ele respondeu sem hesitar, como se a pergunta que ele tinha feito fosse retórica, e aqueles 4 segundinhos que eu levei para falar alguma coisa tivesse durado horas na cabeça dele (também). Então ele disse no sotaque mais nórdéstino que eu já ouvi na vida: "Intééligência é compartilhar!" Eu não entendi mais nada! Cadê Cury, Goleman, Skinner, Piajet??? Eu fiquei tentando entender o que ele quis dizer com isso, e pela primeira vez o sotaque nordestino dele me irritou profundamente. Sem me dar tempo algum para pensar em uma resposta, ou para entender o que aquele sotaque horroroso estava tentando dizer, minha mãe com a maior calma do mundo, sem saber a gravidade da situação, e como se estivesse entendendo perfeitamente o que ele quis dizer, (e pior!!) concordando plenamente com seu comentário, falou: "É claro! Se você sabe alguma coisa e não compartilha com as pessoas isso não é inteligência." O rapaz riu e concordou: “pronto!”

Eu fiquei perplexo. Minha mente parou de funcionar na hora, deu Crash. Tudo que eu sabia tinha desmoronado. Eu precisava de alguns minutos para tentar entender o que estava acontecendo, mas os 2 segundos que ele demorou pra responder a minha mãe, pareceu horas para mim (de novo). Aquelas palavras ficaram se repetindo na minha cabeça como se fossem marteladas, "inteligência é compartilhar! Inteligência? é? compartilhar? In-te-li-gên-ci-a..." Eu ficava tentando entender o significado das palavras para tentar dar sentido para aquela oração insubordinada e insolente! Será então que eu não sou inteligente? Eu pensava. Então quer dizer que ser egoísta é ser burro? Poderia existir alguém egoísta e inteligente? ? ? Eu tentei chegar bem na raiz da questão, na essência do ser humano. Pensei na diferença entre o bem e o mal, e na relação que existiria entre ser bom e ser inteligente. Pensei em como eu sempre discordei de pessoas que falam que Hitler foi um cara muito inteligente apesar de ter sido muito cruel também. Será que a inteligência verdadeira mesmo, aquele fogo que alimenta a alma, o sopro do criador, a faísca que faz o cérebro funcionar de tal forma, a essência de ser humano... Será que isso que ele chama de inteligência tem a ver com bondade??? Tem haver com ser egoísta ou não??? Tem a ver com compartilhar???
Já haviam se passado uns 5 minutos a essa altura, mais do que 300 segundos inteiros e bem vividos, mas todo esse tempo pareceu nada perto da pergunta que ponderava em minha mente. Todo o tempo do mundo seria pouco para tentar desvendar este mistério.

         Depois de todo esse tempo conversando com minha mãe sobre inteligência e amendoins. O rapaz depositou um punhado de amendoins fresco em nossa mesa, e se retirou debaixo do nosso guarda-sol de volta para abaixo do sol escaldante de Aracaju. Minha mãe colocou os pés em cima da cadeira e se reclinou tentando encontrar uma posição mais confortável para repousar sua coluna. Eu coloquei minha cadeira para o outro lado para fugir do sol que já estava queimando o meu rosto, e daquela pergunta que já queimava minha cabeça, e virei de frente para o mar. Naquele momento, eu vi que o mar estava lindo! Surpreendentemente calmo e verde. E o céu azul, com nuvens brancas de todas as formas com as bordas nítidas, formando um arranjo perfeito de grandeza, beleza e calma. O vento fresco soprava gentilmente e me aliviava do calor escaldante que nem era mais tão escaldante assim. Era um calor quentinho e aconchegante. Parei de pensar por um instante e percebi o quanto eu estava feliz naquele momento. Quando eu tomei consciência disso, eu fiquei ainda mais feliz. Comi um amendoinzinho e vi que era realmente natural e muito gostoso mesmo sem sal, respirei fundo e soltei o ar lentamente, dei um sorrizinho para mim mesmo e para quem mais quisesse ver, e pensei por um instante infinito, o quanto seria bom, se eu pudesse compartilhar este momento com você. 
         "Compartilhar! Com-par-ti-lhar..."







Fabio M. Camara

A Tragédia da Poesia



Eu sou o princípio da intenção 
Eu sou as aspas quietas de um poeta rei  
Sobre as palavras belas que deslindarei 
Eu sou dois pontos que lhes contarão 
Sobre os contos que amanhecerão
  
Sou eu o início da composição? 
Sou eu conflito entre compasso e ciclo? 
Serei a vírgula que separa o verso? 
Ou sou o verbo que interpela a vida? 
Sou eu o ponto da interrogação? 
Serei a rima que se sacrifica?  
Ou sou eu a morte da própria escrita?

 Eu sou a dúvida que não duvida  
Eu sou a resposta nas entrelinhas  
Eu sou a catástase da intensão  
Eu sou o aumento de rebeldia 
Eu sou o êxtase de um som complexo 
Eu sou a melodia que grita de excitação 
Eu sou o acento agudo mais circunflexo 
Eu sou o ângulo bem mais aberto 
Eu sou o ponto de exclamação!

 Ainda que eu viva em insolação 
Com o rair da poesia 
Ainda vejo em meu espelho sujo 
Meu reflexo turvo de aparências. 
Porque ainda que haja inspiração 
De se romper o desfecho original 
E se perder nas reticências, 
Ainda insiste a poesia  
em se pôr   (sozinha) 
Atrás de um fatal ponto final.






Fabio M. Camara