20 de mai. de 2013

Um Dia de Sol


Outro dia, eu e minha mãe estávamos na praia, em um dia de sol escaldante em Aracaju, protegidos apenas pela sombra do guarda-sol e uma leve camada de Sundown que teríamos passamos algumas horas mais cedo. Estávamos parados em volta de uma daquelas mesinhas quadradas amarelas desbotadas de plástico com propaganda de cerveja nos quatro cantos, sentados em cadeira igualmente amarelas e igualmente desbotadas, e igualmente quadradas, olhando para o nada ao redor, e conversando sobre mais nada ainda. A praia estava bem deserta, apesar da sexta-feira. Eu estava sentado de frente para o sol ardente e de costas para o mar. O vento, apesar do calor, estava irritante porque estava levando os guardanapos do caranguejo que estávamos comendo, e eu tinha sempre que colocar os copos de cerveja em cima deles, e ficar vigiando as coisas porque eu não queria que elas voassem pela praia a fora. De repente, depois de algumas horas sentados, comendo, bebendo, abobalhados, eu virei o rosto para minha direita bem contra o vento enjoado, e avistei um rapazinho andando em passos longos apressado, num andar ritmado, quase que dançando, vindo em minha direção e carregando uma sacola branca de plástico, e gritando alguma coisa que não dava para distinguir à distancia. Na hora eu pensei que fosse algum maluco sergipano que resolveu dar uma volta na praia numa sexta-feira de sol.  Mas quando ele foi chegando mais perto, eu percebi que ele gritava alguma coisa com a palavra “amendoim”. Era um vendedor de amendoins.

Quando eu percebi o que ele era, eu virei o rosto porque eu já tinha experimentado esse tipo de amendoim, com casca, sem sal, e quase cru, e não gostei nem um pouco. Tem gosto de carne mal passada, ou bife de fígado, sei lá. Isso em um disfarce de amendoim não é muito apetitoso. Além disso, eu não estava com paciência para ficar conversando com o rapaz do amendoim. Mas para meu desencanto, o rapaz parou em nossa mesa. --"Bom dia, pronto, aqui está o melhor amendoim do Nórdéste", ele falou essas palavras no sotaque mais nordestino e mais carismático que eu já tinha ouvido em todo nordeste. Na mesma hora eu tive vontade de soltar uma gargalhada bem alta e espalhafatosa, mas tudo que saiu foi um sorrizinho cordial e receptivo. Obviamente, fiquei curioso em provar o melhor amendoim do Nordeste! Então ele começou a falar. E não parou mais. Sempre no seu sotaque divertido, ele falava: "este aqui é muitcho bom, é feitcho de amendoim natural..." O que me fez pensar o que seria um amendoim artificial... Ele colocou vários saquinhos de amendoim sobre a mesa, e listava o preço de cada um.    --"Nãaaao tem sal nenhum senhora, porque a senhora sabe que sal faz mal né? Todas as pessoa pode comer este amendoim!" Ele repetia várias vezes isso para minha mãe mesmo depois dela ter enfatizado que só gostava de amendoim com sal. --"Porque eu sou o melhor vendedor desta praia. Eu venho todos os dias aqui, os gringos só compram comigo." Não tinha visto nenhum gringo ainda. Mas tudo bem. A gente não queria amendoim nenhum, minha mãe só gosta com sal, e eu não gostava de amendoim com gosto de carne crua. Então eu falei, para tentar me ver livre dele logo: "moço volta amanhã que a gente compra, ta bom? Hoje não queremos não." Na mesma hora ele ficou espantado, quase que ofendido. Não porque a gente não queria comprar o amendoim dele, mas porque eu insinuei para ele trabalhar no sábado. --"Amanhã  nãaaaaooo... Amanhã eu não trabalho nãaaaao... oxenti. Amanhã é sagrado!" Minha mãe falou alguma coisa sobre descansar no sétimo dia. Eu lembro que eu até fiquei em dúvida se sábado era o sétimo dia, ou se era domingo. Normalmente, domingo que era o dia de descanso... Mas estávamos em Sergipe, bem próximo da Bahia, então ele estava certo mesmo de não trabalhar finais de semana. Ele comentou alguma coisa sobre ir à igreja no sábado, e falou também que a igreja tinha salvado a vida dele porque ele já tinha sido um marginal, que vivia no mundo das drogas, e álcool. Eu fiquei admirado, pois ele estava vendendo 'O Melhor Amendoim do Nordeste', e já tinha sido um drogado! Ele contou também, sempre no seu sotaque bem ritmado, rápido e lento ao mesmo tempo, como seu andar, quase uma dança, bem simpático e nasal, que um dia ele teve uma visão. Ele disse que ele estava deitado, "eu tenho cééérteza que eu estava acordado! Não é mentira nãaaao, Eu tenho cééérteza!" e que ele viu um ser vestido de branco com braços longos estendendo a mão para ele. Ele não podia ver o rosto, mas tinha cééérteza de que era um anjo de Deus. Depois disso ele entrou para igreja e passou a vender amendoim e a não trabalhar finais de semana, pois era sagrado, e nem a usar drogas.

A esta altura a cerveja tinha acabado, e eu estava prestando mais atenção onde o garçom estava, para pedir outra, do que em que ele estava falando, mesmo com seu sotaque simpático e divertido. Foi aí que ele fez a pergunta mais inteligente daquele dia de sol: "O que é inteligência?" Opá! Na mesma hora, eu esqueci a cerveja, e em questão de 2 segundos passaram-se diversas teorias sobre inteligência na minha cabeça. Pensei na teoria mirabolante da Inteligência Multifocal de Augusto Cury, tentei me lembrar do livro que eu li há anos sobre Inteligência Emocional e Inteligência Social de Daniel Goleman, lembrei dos testes de QI que já fiz em várias ocasiões. Pensei na Teoria Cognitiva de Piaget e nos estagios da vida. Tentei me lembrar de Freud, Skinner, Bandura... Os 2 segundos inicias já estavam se esgotando, mas ainda tive tempo de pensar que a inteligência talvez estivesse na velocidade de raciocinar e na capacidade de resolver problemas. Também me lembrei da inteligência esportiva dos atletas, de que tem que se ter um cérebro muito eficiente para acertar uma bicicleta com a bola vindo em alta velocidade em questão de segundos. Mas antes que eu pudesse responder, ainda dentro daqueles 2 segundos, minha mãe fez um esboço para tentar responder alguma coisa, pronunciando as palavras de uma forma lenta e irritante: "ahhh eu acho que..." Isso me deu mais uns 2 segundos para pensar que ela iria falar alguma besteira, e seria melhor eu interrompe-la antes que ela me fizesse passar vergonha na frente do pobre vendedor de amendoim. Mas ao mesmo tempo em que eu sabia que eu era a pessoa mais propícia para responder a pergunta daquele rapaz insistente, eu também sabia, com toda minha Inteligência Prepotente, que provavelmente ele não iria entender nada da minha resposta. Neste momento, os outros 2 segundos estavam perto de chegar ao fim, e minha mãe já estava terminando de pronunciar o "que". Então eu falei em voz alta, firme e rápida: "Não, não sei! Fala aí você! O que é inteligência?" Ele respondeu sem hesitar, como se a pergunta que ele tinha feito fosse retórica, e aqueles 4 segundinhos que eu levei para falar alguma coisa tivesse durado horas na cabeça dele (também). Então ele disse no sotaque mais nórdéstino que eu já ouvi na vida: "Intééligência é compartilhar!" Eu não entendi mais nada! Cadê Cury, Goleman, Skinner, Piajet??? Eu fiquei tentando entender o que ele quis dizer com isso, e pela primeira vez o sotaque nordestino dele me irritou profundamente. Sem me dar tempo algum para pensar em uma resposta, ou para entender o que aquele sotaque horroroso estava tentando dizer, minha mãe com a maior calma do mundo, sem saber a gravidade da situação, e como se estivesse entendendo perfeitamente o que ele quis dizer, (e pior!!) concordando plenamente com seu comentário, falou: "É claro! Se você sabe alguma coisa e não compartilha com as pessoas isso não é inteligência." O rapaz riu e concordou: “pronto!”

Eu fiquei perplexo. Minha mente parou de funcionar na hora, deu Crash. Tudo que eu sabia tinha desmoronado. Eu precisava de alguns minutos para tentar entender o que estava acontecendo, mas os 2 segundos que ele demorou pra responder a minha mãe, pareceu horas para mim (de novo). Aquelas palavras ficaram se repetindo na minha cabeça como se fossem marteladas, "inteligência é compartilhar! Inteligência? é? compartilhar? In-te-li-gên-ci-a..." Eu ficava tentando entender o significado das palavras para tentar dar sentido para aquela oração insubordinada e insolente! Será então que eu não sou inteligente? Eu pensava. Então quer dizer que ser egoísta é ser burro? Poderia existir alguém egoísta e inteligente? ? ? Eu tentei chegar bem na raiz da questão, na essência do ser humano. Pensei na diferença entre o bem e o mal, e na relação que existiria entre ser bom e ser inteligente. Pensei em como eu sempre discordei de pessoas que falam que Hitler foi um cara muito inteligente apesar de ter sido muito cruel também. Será que a inteligência verdadeira mesmo, aquele fogo que alimenta a alma, o sopro do criador, a faísca que faz o cérebro funcionar de tal forma, a essência de ser humano... Será que isso que ele chama de inteligência tem a ver com bondade??? Tem haver com ser egoísta ou não??? Tem a ver com compartilhar???
Já haviam se passado uns 5 minutos a essa altura, mais do que 300 segundos inteiros e bem vividos, mas todo esse tempo pareceu nada perto da pergunta que ponderava em minha mente. Todo o tempo do mundo seria pouco para tentar desvendar este mistério.

         Depois de todo esse tempo conversando com minha mãe sobre inteligência e amendoins. O rapaz depositou um punhado de amendoins fresco em nossa mesa, e se retirou debaixo do nosso guarda-sol de volta para abaixo do sol escaldante de Aracaju. Minha mãe colocou os pés em cima da cadeira e se reclinou tentando encontrar uma posição mais confortável para repousar sua coluna. Eu coloquei minha cadeira para o outro lado para fugir do sol que já estava queimando o meu rosto, e daquela pergunta que já queimava minha cabeça, e virei de frente para o mar. Naquele momento, eu vi que o mar estava lindo! Surpreendentemente calmo e verde. E o céu azul, com nuvens brancas de todas as formas com as bordas nítidas, formando um arranjo perfeito de grandeza, beleza e calma. O vento fresco soprava gentilmente e me aliviava do calor escaldante que nem era mais tão escaldante assim. Era um calor quentinho e aconchegante. Parei de pensar por um instante e percebi o quanto eu estava feliz naquele momento. Quando eu tomei consciência disso, eu fiquei ainda mais feliz. Comi um amendoinzinho e vi que era realmente natural e muito gostoso mesmo sem sal, respirei fundo e soltei o ar lentamente, dei um sorrizinho para mim mesmo e para quem mais quisesse ver, e pensei por um instante infinito, o quanto seria bom, se eu pudesse compartilhar este momento com você. 
         "Compartilhar! Com-par-ti-lhar..."







Fabio M. Camara

3 comentários:

  1. É! E que bom que você compartilhou mesmo! A maioria de nós não consegue transcender a essas experiências do cotidiano e encará-las dessa forma, enxergando além. Vendo toda a beleza e sabedoria que elas carregam consigo! Não se preocupe mais, meu caro! Você esbanja inteligência.

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  2. Porque você não escreve um livro, um best seller? Com contos, histórias, vivências, cultura, e etc. Concordo com o sergipano.

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  3. Adorei!! Julia tem que ler! Voce realmente tem um dom!

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