10 de nov. de 2014
Um Café Expresso
Acabei o jantar e fiquei escutando aquela musiquinha agradável do restaurante. O restaurante é bonito e amplo; bem quadrado e preto e branco, com apenas algumas curvas tortas e esporádicas para dar estilo. Imaginei o salão de festas do Titanic (antes do naufrágio é claro); com todas aquelas cristaleiras esbeltas, e aqueles músicos de terno preto tocando violino. Dei o último gole no guaraná zero que eu estava bebendo. Senti um frescor divertido no meu lábio superior ao encostar num pedaço de gelo que ainda estava no copo do guaraná. Reclinei na cadeira, bem confortável, por sinal, e coloquei as duas mãos na nuca para relaxar. Pensei em tomar um cafezinho. O cantor de terno preto começou a tocar aquela música que eu gosto; "lá, laiá, laiá..."
Pedi um café expresso. Adoro essa música! O café veio logo em seguida, em uma xícara pequenina, com flores verdes claras estampadas, tipo de rainha inglesa. Veio com uma bala de banana na borda, um sachê de açúcar branco escrito: açúcar/sugar; e um sachê menorzinho de adoçante escrito: adoçante/sweetener. Decidi adoçar com açúcar hoje; chega de tentar emagrecer, hoje pode, só por hoje. Abro o sachê de açúcar branco rasgando o papel no canto, e começo a salpicar por toda a superfície do café. Cubro toda a superfície com os pequenos cristais de açúcar. Os cristais se lançam na espuma do expresso com vontade, e se mesclam com o café marrom, que muda de cor para um tom mais turvo ao se tocarem. Gostei de ver aquela metamorfose alcaloide. Imaginei que os cristais de açúcar fossem pessoinhas se afogando em um mar de lama, agitado com cafeina. Pensei em escrever um livro sobre isso. Pensei até em escrever essas exatas palavras. Como seria se afogar em cafeína? Me indaguei. Tentei pensar num título para o livro por alguns instantes, mas nada me veio à cabeça. Só consegui pensar em pescadores de marlins, não sei porquê. Salpico o açúcar com mais rispidez, e alguns cristais caem fora da xícara pequena, se espalhando sobre a mesa ao redor do copo (a mesa também é marrom, uhmm... interessante). É encantador ver os cristais de açúcar espalhados sobre a mesa ao redor do copo; devia ter uns 40 cristais brilhantes. Podiam ser os sobreviventes do naufrágio, quem sabe... pensei subitamente como um lampejo. Mas na verdade, eles pareciam diamantes esperando para ser descobertos em uma ilha deserta (diamantes numa ilha?). Enfim...
Espalho o restinho do açúcar ainda mais sobre a mesa ao redor do copo, só pra vê-los todos espalhados desordenados. Agora devem ter uns 80 ou 95 diamantes. Caóticos. É fascinante. O cantor canta aquela parte da música do "lá, laiá, laiaá..." de novo, e eu canto com ele em voz alta. Ele me lembra um judeu gordo, tocando piano, num restaurante nazista. Os nazistas recrutavam os judeus talentosos para distração naquela época. Ou um negro cantador de blues na escravidão. Mas ele era branco, então não podia ser isso... Pensei no café. Levei o copinho delicado até a boca, segurando com dois dedinhos, parecendo uma dondoca francesa em um castelo de vidro. "lá, laiá, laiaaá..." Os cristais de açúcar, ou diamantes, deixaram um círculo de vazio no meio onde a xícara estava. Um círculo perfeito e redondo. Pensei em trigonometria; seno, cosseno, e tangente, enquanto levantava o café. Os círculos perfeitos só podem ser feitos com triângulos pequenos, cada vez menores, progressivamente. Na verdade, cada curva é uma reta invisível, e indivisível. Pensei em pedir uma caneta e uma régua ao garçom para desenhar um círculo perfeito no guardanapo. O cantor muda de música de repente. Começa aquela:
"Chega de saudade,
A realidade é que sem ela não há paz,
Não há beleza...."
O café está amargo demais. Abro o adoçante, e deixo os pedaços de papel sobre a mesa ao redor do copo. Coloco o conteúdo inteiro do sachê dentro do copo. Mexo. Bebo. Agora está doce demais! E a música continua:
"...mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca..."
Bebo o café expresso num gole só. Sinto-me queimar o lábio superior. O açúcar na mesa está me incomodando profundamente. Parece sujo. Bagunçado. Espano com um pano para limpar. O suor do café fica na mesa e faz um estrago ainda maior; molhando ainda mais o molhado do café. Não consigo secar direito, mesmo com força. Muita força. Confesso. Cato os pedaços de papel do açúcar e do adoçante que agora me incomodam profundamente. Irritante como quando o volume da TV cai no número 17! Pois é. O 7 está a três casas do 10, e a duas casas do 5. E 3 mais 2 é igual a 5, que não são 7! Sendo que 1 mais 7 é igual a 8, e 7 menos 1 é igual a 6, que é 86, e não faz sentido com o 17! De forma alguma! Não alcanço. Amasso e jogo na xícara vazia os pedaços. Mas eles não pertencem ali... na xícara vazia do café expresso... é estranho; invulgar... O lugar deles é no lixo... longe dali... me importuna. O gelo do copo do guaraná já derreteu... Bebo a água do gelo do copo do guaraná num gole só... E levanto daquela mesa esquisita...
O judeu continua cantando aquela música:
"...que não sai de mim, não sai de mim, não sai."
Fábios Morgados
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Nossa amor, ficou incrível. A forma que você se expressa, as palavras, os detalhes... Tudo impecável. Saiba que admiro muito a sua inteligencia e parabéns pelo excelente texto! Te amo!!
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