UMA FÁBULA
Sobre a sensação da Culpa, mecanismos de defesa do ego: negação, racionalização, e fantasia. et al.
*Inspirado no conto A Roupa Nova do Rei,
(por Hans Christian Andersen), sobre uma suposta roupa invisível de um rei, que só seria vista pelos mais inteligentes, mas na verdade verdadeira verdadeiramente; não existia.
A MOÇA COM A ARMA NA MÃO
Com a arma apontada para minha cabeça, ela me pergunta mais uma vez se o rei está vestido. Eu imploro e juro à ela que o rei está de fato pelado, correndo pelo palácio, tentando catar borboletas. Ela se irrita ainda mais, e jura que eu estou mentindo. Aponto para as roupas verdadeiras dele espalhadas pelos pisos vermelho brilhante do vasto saguão. O jester da corte, de chapéu de três pontas, azul, vermelho, e amarelo, amedrontado, numa tentativa frustrada de acabar com aquela tensão, pega uma vestimenta do rei e sacode sobre sua cabeça mostrando para a moça com a arma na mão, que o rei estava realmente despido. Mas, irredutível, ela aponta a arma ainda mais para minha cabeça, e ameaça explodir meu cérebro em farelos, se eu não admitisse que o rei estava de fato vestido.
Eu imploro mais uma vez, sob a mira da moça com a arma, gritando e olhando diretamente nos seus olhos que o rei estava nu, enquanto o próprio rei ainda saltitava com as mãos para o alto ainda tentando capturar borboletas. Com um olhar abstrato e furioso, e convencida de sua certeza, a moça atira duas vezes no meio da minha cara, porra! Os dois tiros entram pelo meus olhos e saem em rombos diferentes nas costas da minha cabeça, esparramando pedacinhos de cérebro e sangue pelo piso já vermelho, e agora um pouco negro. Eu olho diretamente para os farelos de cérebros no chão e tento pegá-los com a mão, mas sua textura gelatinosa se desfaz entre meus dedos. Volto meus olhos com raiva e desgosto para aquela moça com a arma na mão, que ja foi minha amada algumas horas mais cedo. Ela grita e esbraveja dizendo que a culpa foi minha, e se ao menos eu tivesse admitido que a porra do rei estava vestido...
O jester e outros discípulos do rei olham para ela com olhar de preocupação e medo, rezando para que a moça com a arma não os fizesse a mesma pergunta. Eu dou um basta na situação, viro de costas, com raiva no olhar, apontando os dois canos, agora nas costas da minha cabeça, para os olhos raivosos dela, e começo a andar. Paro e abaixo para recolher os pedaços do meu cérebro que eu consigo segurar com as mãos em forma de concha. Continuo a andar ignorando os xingamentos e o devaneios da moça, que já foi minha amada alguns minutos mais cedo. Meu coração pensava em interná-la em um hospital psiquiátrico, mas meu cérebro era só raiva despedaçada! E continuei.
A moça com a arma na mão, então se sente rejeitada e me acusa de desprezá-la, e de ser arrogante com ela, e insensível à sua dor. Dispara ainda mais tiros de ofenças e xingamentos, que são respondidos à altura por mim, e pelas migalhas de cérebros indignados em minha mão, e pelos buracos de tiros enfeitando as costas da minha cabeça, enquanto meu coração observa. Indignada, a moça com a arma, que já foi minha amada alguns segundos mais cedo, atira mais três balaços pelas minhas costas, que me atingem de raspão no braço e na coluna. Eu continuo andando, mas paro, e olho para trás em um determinado momento, chegando na porta de saída. A moça me pergunta se eu não vou voltar para conversar com ela sobre o que havia acontecido. Meu coração olha para cima e me pede pacientemente para ficar mais um pouco, mas os farelos do meu cérebros revoltados e esmigahados em minha mão, escorrendo por entre meus dedos, se recusam, e ameaçam uma rebelião generalizada, caso eu volte.
Eu respeito meu cérebro, o que deixa uma moça com uma arma na mão, quem eu já não sabia ao certo quem era, ainda mais irritada pela minha insolência. Ela continua me atacando, com ainda mais raiva e desgosto, atirando devaneios pelas minhas costas, mas suas palavras já não são mais distinguíveis. Parece um idioma que eu não conheço ao certo. Seu rosto já não é mais o mesmo, sua pele vai enrijecendo, e distorcendo conforme eu saio para o lado de fora daquele saguão fechado, e adentro o jardim. Na saída vejo alguns discípulos ajudando o rei saltitante a se vestir de novo. Pego o caminho ao lado e continuo andando. Quando olho para trás vejo uma masmorra com uma mulher velha, de cara rígida e fria, com as duas mãos na cabeça sacudindo seus cabelos negros ressequido, de um lado para o outro, olhando para o chão, e jurando que um dia existiu um rei, em algum lugar, que andava vestido, e não catava borboletas. Eu não soube dizer ao certo do que ela se referia.
Imaginei que talvez tivesse sido alguma história de um amor que se perdeu, e se trancou em uma masmorra, desolado. Meu cérebro me agradeceu, orgulhoso, por alguma coisa que não me lembro, se acomodando de volta em meu crânio espaçoso.
E meu coração nunca mais se atreveu a tomar as rédeas da situação, de novo.
Moral da história: AS BORBOLETAS REALMENTE EXISTIAM?
fABiO cAMarOU
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