27 de out. de 2009

Lisboa Revisitada - Álvaro de Campos




Não: não quero nada.
Eu já disse que eu não quero nada.
Não me venham com conclusões! 
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Leve metafísica para longe de mim!
Não venha me proclamar sistemas completos ou listar para mim as conquistas das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu a todos os deuses?
Se têm a verdade, guardem-na! (...)
Ó céu azul - o mesmo da minha infância -,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa dos tempos, passado de hoje!
Você me dá nada, você toma nada de mim, você é nada até
quanto eu posso sentir.
Deixe-me em paz! Eu não devo me atrasar, pois eu nunca me atraso...
E enquanto o Abismo e o Silêncio se atrasam, quero estar sozinho!





Lisbon Revisited (1923) 

Álvaro de Campos [heterônimo de Fernando Pessoa]



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